Religião ou seita?

Os mistérios e encantos de um terreiro de Candomblé

Por Renan Oliveira

Quem passa pela frente logo percebe que se trata de uma casa de Axé, ou, para os ignorantes e intolerantes, casa de macumba ou do diabo.  Em cima do muro branco, pequeno vasos de barrose e uma palha seca de dendê no portão de entrada, indica os  símbolos de um terreiro de Candomblé.

Luana karinani, uma filha de santo regida por Nanã, a Orixá mais velha da mitologia africana, também conhecida como vovó, foi quem me levou ao Terreiro Manso Neto de Laje Grande, localizado em Lauro de Freitas. Logo perguntei a Karinani o motivo desse nome tão extenso para o terreiro, e ela não soube me responder, pois se tratava de fundamento da religião.

Fundamento. Essa era sempre a palavra que ouvi muito quando minha instigante curiosidade resolvia indagar sobre os elementos do terreiro. Fundamento, segundo karinani, é a doutrina da religião que é extremamente restrita aos seus membros. Disse-me que nem todos os membros do Candomblé sabem todo o fundamento da religião. “Parece ser algo determinado pelos deuses” disse. Assim, pensei que se tratava mais de uma seita que uma religião.

Logo fui apresentado ao Pai de Santo da casa, o Babalorixá Manuel, homem muito solícito e diligente, mas apenas quando minhas perguntas não eram inconvenientes. Pai Manuel, que é regido por Xangô, me mostrou seu terreiro que não era muito grande. Por toda a parede do ambiente existiam palhas secas de dendê penduradas horizontalmente na parte superior dos muros e paredes, a mesma que estava no portão de entrada. Essa palha é chamada de Mariú que, segundo Pai Manuel, protege a roça dos maus espíritos, dos egús, que são espíritos malevolentes, espíritos de mortos que perturbam os mortais.

No meio do barracão, onde acontecem os rituais litúrgicos, estava pendurado um prato de barro. Pai Manuel me disse que havia naquele prato coco e milho, comida de Oxossi, Orixá que habita as matas e florestas.

Enquanto Pai Manuel estava afastado, pois falava no celular, eu e Karinani andávamos pelo terreiro. Conheço-a de longas datas, pois, outrora, me levara em outro terreiro para eu fazer um trabalho sobre antropologia simbólica.

Defrontei-me com uma minúscula casa com muitas bonecas plásticas, dessas que crianças brincam quando ainda na ingenuidade passageira que é a infância. Karinani me disse que era a casa da Erea, a Orixá criança. Uma Orixá que brinca de boneca? Achei isso interessantíssimo!

Logo ao lado da casa de boneca da Erea, uma escultura de ferro estava assentada no chão, cujo tinha chifres e um tridente na mão; era o Exu. Karinani mostrou-me um objeto de ferro parecido com um arco e flecha, era o Ofá, ferramenta de guerra de Logum Edé.

Pai Manuel voltou após longa conversa nesses aparatos tecnológicos portáteis para comunicação, que em certos momentos é melhor esquecê-lo, e me disse que iria se arrumar, pois a festa para Xangô já estava para começar. Uma hora depois os atabaques tocavam. As pessoas chegavam e se achegavam em tamboretes dentro do barracão. De dentro via que quem passava na rua olhava para dentro e se benzia; uma mulher que passava com duas crianças picou uma tapa nas costelas do moleque curioso que se atreveu a olhar para dentro do barracão. (‘Método pedagógico’ muito eficaz para o intolerantismo.)

Enquanto os atabaques tocavam naquela ambiência de espiritualidade, as mulheres dançavam em movimentos em que levemente desciam e subiam, onde seus membros superiores pouco inclinados iam para frente e para trás, e seus braços dobrados faziam o mesmo movimento.

Quem tocava os atabaques eram os Ogans. Lúcio, um estudante de História, é um Ogan, ele me contou que os Ogans têm, além de outras, a incumbência de tocar os instrumentos nos rituais, pois não são rodantes, não são incorporados por deuses, assim como as Ekedes, as mulheres não rodantes, que não recebem entidades, mas não podem tocar nenhum instrumento; elas auxiliam na produção da festa, podem também cantar e bater palmas, mas nunca tocar o atabaque, por motivos, claro, de fundamento.

Pai Manuel chegou todo de branco, numa vestimenta que lembrava os reis africanos. Sua mão carregava um grande prato de barro chamado de Agdá, cujo dentro tinha quiabo, dendê e camarão a comida de Xangô, chamada de Amalá. Logo me lembrei de uma música de Mariana Aydar cujo refrão é: “pra Xangô tem, tem Amalá”. O acepipe de Xangô foi colocado pelo Pai Manuel próximo ao portão de entrada do terreiro. Optei não perguntar nada a respeito, pois já sabia a resposta monossilábica. Então melhor mesmo foi ouvir os atabaques que soavam naquele ambiente que faziam mulheres dançarem cantando a história mitológica da África e incorporando seus deuses, numa liturgia que envolvia arte e espiritualidade, beleza e mistério.

Depois de me deliciar com as iguarias, quitutes e guloseimas da festa, admirado com a dança, a música transcendental oriunda das riquezas e manifestações africana, fui embora com a benção de Xangô, que usou o corpo de Pai Manuel para me dizer: “cuidado no caminho e nas encruzilhadas”. Imediatamente me lembrei de uma música de Vinicius de Morais, cujo refrão é: “amigo, senhor, saravá! Xangô quem mandou lhe dizer: se é canto de Osanha não vá, pois muito vai se arrepender”. Assim, vos disse que se em meu caminho ele estiver, estarei seguro, e partir com o oráculo de Xangô. (Espero que ele não saiba que eu sou Ateu!)

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