Quem tem medo de dona Margarida?

Monólogo retrata os métodos e mecanismos da pedagogia brasileira

Por Renan Oliveira

 O minúsculo e aconchegante teatro Gamboa Nova fica localizado na ladeira do Aflitos, na Gamboa de Cima, atrás do teatro Vila Velha. O espaço é pequeno, mas já passaram grandes nomes como Nilda Speicer e Zizi Possi. O teatro, que foi inaugurado nos anos setenta, abriu suas cortinas para o Festival Internacional de Artes Cênicas (FIAC), que movimentou a capital baiana entre os dias 23 e 31 de outubro. Entre os espetáculos do festival que esteve no palco do Gamboa Nova foi Quem tem medo de dona Margarida? Um monólogo protagonizado pela atriz Larissa Nunes, que encenava uma professora de comportamentos esdrúxulos e tinha um método pedagógico nada convencional a base do autoritarismo, capaz de por terror em qualquer classe com sua pedagogia, cuja acreditava ser o modelo para salvar a humanidade. Ao longo do espetáculo dona Margarida mostra os seus métodos de ensino para as disciplina de português, matemática e biologia. Para ela, a biologia nada mais é que uma ciência que mente e que omite uma verdade: a morte. Assim, para ensinar biologia, esta ciência da vida, a professora afirma várias vezes que biologia só existe por causa da morte, e que o principio da vida é a morte; então nada mais natural compreender a morte, para entender a vida e a biologia, tudo isso da maneira mais aterrorizante possível. No palco a professora aos poucos vai tirando a roupa, que, aliás, eram muitas. Em um tom irônico, humorado, sarcástico e debochado, dona Margarida transparecia uma mulher cheia de angustias devido ao fracasso do sistema educacional brasileiro. Era uma mulher, talvez, comum através de seus desvios de condutas morais e sexuais, chegando a masturbar-se no palco. O público deliciava-se sentado em cadeiras de bambu, com almofadas vermelhas já surradas do tempo; o espetáculo parecia mais uma metáfora de um discurso desesperado a respeito da instrução, educação e da cultura brasileira, que encontrou na arte o caminho mais conveniente para expor as agruras de uma realidade. Os aforismos da professora eram sobre os valores da escola e suas formas mais grotescas de se ensinar, contando mentiras e deturpando fatos históricos. Quando, no fim do espetáculo, dona Margarina ficou completamente nua, sem tapa sexy, como quem ali estivesse nua fosse à educação brasileira, para que todos pudessem ver uma manipulação ideológica travestida de verdadeira instrução, conservada pelos dirigentes do país, daí o nome do espetáculo ser Quem tem medo de dona margarida? Talvez dona Margarida representasse a ‘elite’ conservadora deste país.

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