Equívocos semânticos

Representações do negro e do preto na língua portuguesa

Por Renan Oliveira

As palavras, no campo da semiótica, são signos, ou seja, as palavras gráficas e orais servem para representar coisas, lugares, sentimentos, cores, realidade etc. Assim, as palavras e seus significados  representam algo estabelecido, convencionalmente, dentro da cultura de uma sociedade. Nesse aspecto semiótico, ou talvez semiológico, já que esta estuda os signos lingüísticos, este minúsculo texto objetiva analisar as construções semântico-lexicais dos grafemas preto e negro, assim como seus sinônimos, tal como suas colocações formais e nos hábitos lingüísticos ou vícios de linguagem. Neste mês de novembro onde se fala e discuti (?) sobre a Consciência Negra e sua representação na sociedade brasileira. Acredito na pertinência deste texto, para (tentarmos) entender a construção do negro em diversas esferas, inclusive lingüística, por isso parto da pergunta: afinal, o que é negro e o que significa ser negro?

Cotidianamente em nossas conversas formais e informais, ou mesmo na escrita, costumamos emitir palavras e frases sem levar em conta seu conceito semântico/lexical, o que pode, muitas vezes, ocasionar em equívocos e pré-conceitos. Dessa mesma forma, costumamos adjetivar coisas sem também entender precisamente sua carga semântica. Muitas vezes essa prática acaba se tornando um hábito lingüístico ou vicio de linguagem, caindo no senso comum da irreflexão sobre os sentidos exatos das palavras que emitimos e decodificamos regularmente.

Quando em uma palestra sobre jornalismo e racismo no Irdeb, em 2008, uma mulher, provavelmente militante do movimento negro, se levantou da platéia, repudiando o equívoco de colocação da palavra denegrir. Achei muito estranho aquilo, pois, até aquele dia, para mim, denegrir significava insultar, difamar, injuriar, macular a imagem ou honra de outrem. Mas a mulher dizia que denegrir significava tornar negro; vem do verbo denegrecer. O repúdio daquela mulher era o equívoco tendencioso sustentado pelo racismo e entranhado até nos hábitos lingüístico da língua portuguesa. O preto, o negro, o escuro são associados há algo ruim, pernicioso, estranho, sujo, assim como Joaquim Manuel de Macedo, em Vitima-algozes, tentou estigmatizar e depreciar a figura do negro – negro no sentido étnico.

Quando digo que alguém quer me denegrir, digo que quer macular minha imagem, reputação, que alguém quer meu mau; mas o ato de alguém querer me tornar negro, me denegrecer é querer meu mau? É me sujar, me macular? É destruir minha honra, moral, reputação? Afinal o que pode ser tão ruim assim se tornar negro, ser denegrido, denegrecer? O que será que Bob Marley sentia quando se auto-denegria passando graxa em sua pele para ficar mais negro?

Depois daquele dia, das pertinentes declarações daquela mulher, cujo nem sei quem é, comecei a observar a construção dos sentidos das palavras preto e negro e seus empregos semânticos da vernácula. Dia após dia encontrava em jornais, na tevê, em livros e principalmente nas conversas informais do cotidiano, que inclusive, eu  utilizava.

Naquela mesma semana, quando comprava um refrigerante no comercio informal, em dia chuvoso, o vendedor ao lado perguntava ao vendedor que me atendia, como estava sendo o dia- em termos de venda- e ele respondeu que” a coisa ta preta”. A mensagem foi decodificada por mim e pelo emissor da pergunta, que o dia não foi bom em termos de venda, assim, a palavra preta representou algo ruim, que não estava bom, que não houve êxito, de insucesso. Enquanto andava pelo centro, no mesmo dia, pensado no emprego da palavra preto, significando algo ruim, deparei-me em uma banca de revistas e o jornal A Tarde, cuja manchete era “Mercado negro movimenta milhões na Bahia”. O negro, neste caso, está no lugar de outro grafema que representa o ilícito, ilegal, transgressor de regulamentação normativa, marginal as leis, que não procede de forma correta. O mercado não é ilegal, é negro. A coisa não está ruim, está preta. A revista Brasileiros de Outubro de 2009 tem uma reportagem sobre um empresário chinês cujo diz: “Orgulha-se em ver a China renascendo após os anos negros da revolução”. Aqui o “negros” significa um período nebuloso que a China passou numa certa revolução, mas, agora, ela está renascendo, não está mais negra, está de qual cor? E assim vai-se construindo no imaginário popular, nas convenções lingüísticas um conceito depreciativo do preto/negro, mas como cor, no sentido óptico/físico ou como etnia?

Assim, para denominar uma praga biologia pandêmica de séculos passados deram o nome de peste negra. Para dar nome a uma seita satânica de ritos macabros dizemos magia negra. Para denominarmos o membro da família que transgrediu regras morais, o filho que nenhuma mãe quer, chamamos de ovelha negra. A ata onde estão escritos os nomes de nossos inimigos, ou de pessoas que desejamos algum mau, ou que, maledicentemente, queremos sua inglória, chamamos de livro negro e assim os grafemas negro e preto tornam signos, que está no lugar de outra coisa, representado algo, mas o quê? O ruim, o ilegal, o mal, o satânico, o maledicente, o sujo, o perigoso? Talvez um léxico ou um gramático semântico pudesse nos explicar a construção da identidade do preto/negro na língua portuguesa, alicerçada por engenheiros astutos que utilizam até a língua para projetar suas ideologias. (Os engenheiros são os lingüistas e lexicógrafos.)

Glossário (?)

denegrir
de.ne.grir
(de2+negro+ir) vtd e vpr 1 Tornar(-se) negro ou escuro: As chamas denegriram a parede. A sua pele denegriu-se. vtd 2 Macular, manchar, infamar: Ninguém o denegrirá na minha presença. Denegriu-lhe a reputação com palavras aleivosas. vpr 3 Pint Escurecer-se. Conjuga-se como agredir.

preto1
pre.to1
(é) adv (lat vulg *prettu) ant O mesmo que perto.

preto2
pre.to2
adj 1 Diz-se da cor mais escura entre todas; negro. 2 Diz-se dos objetos que têm essa cor (a rigor, no sentido físico, o preto é a ausência de cor, como o branco é o conjunto de todas as cores). 3 Diz-se das coisas que, embora não tenham essa cor, são mais escuras em relação às da mesma espécie. 4 Pertencente à raça negra. 5 Diz-se dessa raça. 6 Escuro, sombrio. 7 Em má situação; difícil, perigoso

negro
ne.gro
adj (lat nigru) 1 Que recebe a luz e não a reflete; preto. 2 Escuro. 3 Sombrio. 4 Denegrido, requeimado do tempo, do sol. 5 Lutuoso; fúnebre. 6 Que causa sombra; que traz escuridão. 7 Tenebroso, caliginoso. 8 Tempestuoso. 9 Tétrico, horrível, lúgubre. 10 Que pertence à raça ou ramo negro. 11 Ameaçador, medonho. 12 Condenado, maldito. 13 Que anuncia infortúnios; funesto, nefasto. 14 Horrendo, pavoroso. 15 Pervertido. 16 Adverso, inimigo. 17 Execrável, nefando, odioso. sm 1 Indivíduo da raça negra. 2 Escravo. 3 Homem que trabalha muito. 4 poét Escuridão, trevas. 5 Ornit O mesmo que negrinha (ave). N.-d’água, Folc: o mesmo que caboclo-d’água. N.-de-fumo: fuligem produzida pela combustão dos resíduos do pez, do alcatrão e outras resinas; pó-de-sapato. N.-de-marfim: marfim reduzido a carvão. N.-dos-bosques: inseto lepidóptero (Satyrus phoedra). N. fugido: jogo infantil, variação do esconde-esconde. N.-mina: a) assim se denominava certa casta de negros do grupo sudanês; b) nome de uma árvore silvestre.

Moderno dicionário da língua portuguesa- Michaelis, Editora Melhoramentos, São Paulo-2007

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